As ações tomadas pelo governo federal para enfrentar a crise hídrica devem custar até R$ 140 bilhões nos próximos 30 anos, valor que será repassado aos consumidores na conta de luz. A estimativa é do Instituto Clima e Sociedade (ICS).
Fatores como o custo de acionamento das termelétricas para minimizar o risco de racionamento de energia, o socorro de até R$ 15 bilhões para as distribuidoras, o leilão emergencial de energia e os jabutis na MP que viabiliza a privatização da Eletrobras devem onerar ainda mais as tarifas de energia elétrica, fazendo com que os reajustes sejam cada vez maiores.
Em evento virtual realizado na segunda-feira (22), a coordenadora do ICS, Amanda Ohara, afirmou que o risco de apagão é menor para este ano, mas o custo para o consumidor continua elevado, com uma tendência de aumento nos próximos anos. Segundo ela, ações na área de eficiência energética poderiam ter impacto semelhante na solução da crise hídrica no país com custos muito menores.
A crise hídrica fez as importações de energia elétrica dispararem. A falta de chuvas levou o Brasil a comprar mais energia de vizinhos como Argentina e Uruguai, em contraste com menos importações do Paraguai, cuja usina binacional de Itaipu também sofre com a escassez hidrológica. Especialistas creem, contudo, que esse ritmo tende a diminuir com a perspectiva de mais chuvas, aumento do nível dos reservatórios, e maior geração de usinas hidrelétricas.
Dados do Ministério da Economia mostram que de janeiro a outubro de 2021 as compras de energia elétrica cresceram 63,8%, na comparação com o mesmo período do ano passado.
O cenário deste ano contrasta com o do ano passado, quando as importações de energia elétrica caíram 4,8% de janeiro a outubro, na comparação com o mesmo período de 2019. No ano pré-pandemia, as importações de energia elétrica haviam caído 11%.
O recorde de importação de energia elétrica ocorreu em outubro deste ano, quando o Brasil comprou US$ 344 milhões de seus vizinhos, ultrapassando o pico anterior de fevereiro, quando havia comprado US$ 311 milhões.
“A falta de chuva, e a crise hídrica decorrente, explica esse cenário. As vendas da Argentina e do Uruguai só ocorrem quando os preços aqui estão muito altos, porque em geral esses países disponibilizam geradores baratos para seu mercado doméstico e os caros para exportação”, afirma Roberto Brandão, pesquisador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Brandão afirma que até três meses atrás o Brasil só comprava da Argentina e do Uruguai quando deixava de acionar uma termelétrica cara aqui para importar o gerado em uma de fora, que estava mais barata.
“De lá para cá, no entanto, começou-se a utilizar tanto as usinas mais caras aqui quanto as importadas caras”, afirma o pesquisador, ao lembrar que a situação hidrológica do Brasil tem melhorado nas últimas semanas.
Hoje o Brasil compra menos do Paraguai e importa recordes da Argentina e do Uruguai. Entre janeiro e outubro, o Brasil comprou US$ 670 milhões da Argentina, uma alta de 7.503,9% na comparação com o mesmo período do ano passado. Importou ainda US$ 266 milhões do Uruguai, uma alta de 3.784,8%, e US$ 1,08 bilhão do Paraguai, o que representou queda de 10,8%.
Os números seguem uma tendência que teve início no ano passado, quando o Brasil importou US$ 34,6 milhões da Argentina, 1.183% a mais do que em 2019, US$ 21,1 milhões do Uruguai, 18,4% a mais do que no ano anterior, e US$ 1,45 bilhões do Paraguai, o que representou 3,1% a menos do que um ano antes.
Com isso, a energia da Argentina passou de 2,29% do total de energia importada em 2020 para 33,1% no período de janeiro a outubro deste ano, enquanto a do Uruguai passou de 1,39% para 13,1%, e a do Paraguai, de 96,3% para 53,8%. As importações, que respondiam por 0,52% do consumo do país no ano passado, hoje representam 1,01%, segundo dados da Câmara de Comercialização de Energia (CCEE).
O Brasil sempre importou de vizinhos, que funcionam como um backup para o país, segundo especialistas, mas era algo menor. “Só contratamos a energia excedente desses países quando estamos em situação de penúria mesmo”, afirma Luiz Eduardo Barata, ex-diretor do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).
Isso porque o preço da energia vinda da Argentina e do Uruguai é muito mais alto do que o de Itaipu. Enquanto a tarifa média que as distribuidoras podem pagar pela energia vinda do Uruguai nesta semana pode chegar a R$ 1.796/megawatt-hora (MWh), a da Argentina pode ser de R$ 1.534,21/MWh, segundo cálculos feitos com base em dados disponibilizados pela ONS.
Já a tarifa média de Itaipu é de R$ 196,19/MWh (US$ 35/MWh), de acordo com Edvaldo Santana, ex-diretor da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
No mês passado, a Aneel aprovou a recomposição tarifária das usinas termelétricas de Araucária, no Paraná, movida a gás, e Potiguar e Potiguar III, no Rio Grande do Norte, movidas a diesel. No caso de Araucária, a tarifa passou a ser de R$ 2.553,20/ MWh, enquanto nas da Potiguar e Potiguar III de R$ 1.379,89/ MWh.
No leilão de energia emergencial para a contratação de energia elétrica a ser entregue ao sistema entre maio de 2022 e dezembro de 2025, o preço médio de contratação das térmicas foi de R$ 1.563,61/ MWh.
Barata afirma que Itaipu perdeu protagonismo no total de energia importada, porque vem enfrentando problemas semelhantes ao do Brasil, com falta de chuvas. A usina gerou 79.445 GWh em 2019, 76.382 GWh em 2020 e 48.110 GWh de janeiro a setembro deste ano, de acordo com informações do site da Itaipu Binacional.
“Vivemos em crise há alguns anos. Cada vez que superamos uma situação difícil, em vez de nos precavermos, pensamos que isso não vai mais acontecer. Mas a cada ano as condições têm ficado mais adversas do que no ano anterior”, diz Barata.
A perspectiva no médio prazo, contudo, é que o Brasil importe menos energia elétrica de seus vizinhos. “Fazia muito tempo que a Argentina não exportava volumes tão grandes de energia elétrica para o Brasil. Isso aumentou de 2020 para cá, mas é algo conjuntural, que não deve se manter”, afirma Gustavo Perego, diretor da consultoria Abeceb, em Buenos Aires.
Segundo Perego, a expectativa é que de agora até maio ou junho a Argentina exporte mais US$ 300 milhões em energia elétrica ao Brasil. “Mas a partir do segundo semestre de 2022 a estrutura hídrica do Brasil deve começar a se recompor, e isso fará as nossas exportações diminuírem”, argumenta.
Além disso, afirma Perego, com a reforma do setor elétrico brasileiro e a projeção de maior produção de usinas a gás, a previsão é que a Argentina exporte menos energia elétrica e mais gás para o Brasil no futuro.
“Estamos com os reservatórios vazios, tendo que comprar energia de tudo quanto é lugar”, afirma Adriano Pires, presidente do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE). “Mas não sei se isso se manterá. Em dezembro vem a energia gerada nas usinas do Norte, o que começa a se reduzir em abril e maio. Por ora, as baixas temperaturas e a baixa atividade econômica ajudam, mas pode ser que estejamos contratando racionamento para o ano que vem.”
Créditos: Com informações – Valor Econômico e Gazeta do Povo
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