A partir do dia 20 de setembro, os produtores rurais da Serra Catarinense iniciam o plantio do milho e, em outubro, o foco são as lavouras de feijão e soja. É justamente neste período que se intensificam os ataques dos javalis, animais exóticos que, apesar das ações de controle, se tornaram uma praga. São animais que podem transmitir doenças até para os seres humanos, ameaçam a integridade física das pessoas e causam enormes prejuízos econômicos em toda a cadeia alimentar. Para se ter uma ideia, na safra 2020/2021, um produtor de Campo Belo do Sul perdeu, em uma semana, 50 hectares cultivados com milho. A preços atuais, o replantio custaria R$ 150 mil.
Acredita-se que na América do Sul, o javali-europeu tenha sido introduzido pela primeira vez na Argentina e Uruguai, por volta do século XX, para fins de criação. No Brasil a criação de javalis e híbridos começou em grande escala em meados da década de 1990. Desde então, a população cresceu sem controle, tornando-se um problema grave principalmente nos últimos 10 anos, já que ataca em grandes grupos e não possui predador natural. Cada fêmea pode gerar até 10 filhotes por ano, que em 10 meses, também estarão aptos a procriar. O resultado é uma superpopulação.
Bernard Borchardt é o coordenador regional de Defesa Sanitária Animal da regional da Cidasc em Lages. Ele explica que os javalis são suídeos, mas podem cruzar com os suínos comuns, transmitindo doenças durante o processo. "Santa Catarina é o maior produtor nacional de suínos e em função de rigorosas práticas sanitárias exporta para vários países. O contágio desses animais seria catastrófico para a economia estadual."
Atualmente, em função dos riscos, somente podem ser transportados animais mortos. A Cidasc também mantém uma parceria com os produtores, que coletam sangue dos animais abatidos para analisar a existência de possíveis doenças.
Ele confirma relatos de produtores rurais, afirmando que javalis estão abatendo ovelhas, bezerros e até animais silvestres, a exemplo de veados e pássaros rasteiros. "Eles comem tudo o que encontram. Quando a lavoura é cultivada, passam no carreiro consumindo a semente e até o adubo. Tem um produtor da nossa região que perdeu cinco hectares de lavoura em apenas uma noite.
Período mais crítico
O diretor comercial da Cooperplan, Luis Uncini, avalia que a partir de setembro será o período mais crítico das lavouras em relação aos javalis. Agora em agosto, praticamente não há nada plantado além de pastagens. Mesmo a aveia, utilizada como pasto, não é muito apreciada pelos javalis e o registro de danos na cultura é pequeno.
A partir do dia 20 de setembro começa o plantio de milho, grão que tem a preferência dessa espécie invasora. Na última safra, alguns produtores da região de Lages perderam até 15% de toda a produção. "Eles comem até o adubo, porque ele tem potássio e é salgado. Eles gostam muito de sal," explica Luis.
Produtores contratam caçadores
Nos últimos anos, muitos produtores rurais de Campo Belo do Sul deixaram de cultivar milho em função dos javalis. É o que explica o chefe da unidade da Copercampos, Jocelito Mattos. Recentemente, como o preço do grão está em alta, os produtores se unem e contratam equipes de caçadores para proteger as lavouras. São caçadores autorizados pelo Ibama e com armas registradas no Exército, tudo dentro da Lei.
"É a única forma de proteger as lavouras. No ano passado, um produtor perdeu 50 hectares em uma semana. A preços atuais, gastaria R$ 150 mil para fazer o replantio. O custo com sementes, hora-máquina e adubos é muito alto."
Jocelito avalia que, além dos prejuízos financeiros, esses animais causam um desconforto comportamental para os produtores rurais. São pessoas que trabalham o dia inteiro e à noite ficam em vigília para proteger as lavouras, é muito desgastante.
No Brasil
De acordo com o último relatório do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), até 2018, a ocorrência de javalis foi registrada em 1.536 municípios em 22 Estados brasileiros: Acre (4), Amazonas (7), Bahia (52), Ceará (8), Distrito Federal ( ), Espírito Santo (7), Goiás (86), Maranhão (21), Minas Gerais (198), Mato Grosso do Sul (71), Mato Grosso (51), Pará (7), Paraíba (05), Pernambuco (6), Piauí (15), Paraná (207), Rio de Janeiro (15), Rondônia (15), Rio Grande do Sul (178), Santa Catarina (123), São Paulo (439) e Tocantins (20).
Em Santa Catarina
Em solo catarinense, segundo o relatório do Ibama, os municípios de Braço do Norte, Itá e Seara foram classificados com prioridade extremamente alta, muito alta e alta para a prevenção da ocorrência de javalis em mais de um aspecto (ambiental, socioeconômico ou sanitário). No controle populacional da espécie, a preocupação maior no Estado nos três aspectos é justamente nos municípios do Meio Oeste e Serra Catarinense.
Quando os aspectos são analisados de forma individual, mais municípios e regiões entram nos índices. Sob a análise ambiental, preocupam mais as situações dos municípios de Catanduvas, Morro Grande, Passos Maia, Ponte Serrada, Rio dos Cedros, Rio Rufino, São Joaquim, Timbé do Sul, Treviso, Urubici, Urupema e Vargem Bonita. No aspecto socioeconômico, estão com problemas no controle populacional os municípios de Abdon Batista, Bom Jardim da Serra, Campo Belo do Sul, Capão Alto, Dona Emma, Formosa do Sul, Lages, Presidente Getúlio, São Joaquim, Urubici e Zortéa. Já Seara e Itapiranga estão classificados com prioridade extremamente alta e muito alta no aspecto sanitário.
Ações para controle
Desenvolvem trabalho em conjunto para o controle da proliferação dos javalis no Estado, o Ibama, Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Polícias Militares Ambientais nas regiões, agroindústrias locais, Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc), Instituto do Meio Ambiente (IMA), Instituto Catarinense de Sanidade Agropecuária (Icasa) e Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri), com apoio da Faesc.
Além dos prejuízos nas lavouras, a maior ameaça é sanitária. O contato entre criações domésticas e comerciais com populações de vida livre tem especial importância quando se trata de doenças transfronteiriças, de notificação oficial internacional e que podem resultar em restrições ao comércio internacional, como Peste Suína Clássica (PSC), Peste Suína Africana (PSA), doenças das quais o Estado é livre.
O Ibama concede autorizações para a caça dos animais e a Polícia Ambiental também autoriza em casos pontuais, através da Portaria 004/CPMA/PMSC/2017. O controle da espécie foi liberado no Brasil pela Instrução Normativa do IBAMA n°03, de 31 de janeiro de 2013 e atualizada pela Instrução Normativa do IBAMA n°12, de 25 de março de 2019.
Também há o Plano Nacional de Prevenção, Controle e Monitoramento do Javali (Sus scrofa) no Brasil - Plano Javali - publicado pela Portaria Interministerial MMA/Mapa n° 232, de 28 de junho de 2017.
Fonte: Rio do Peixe
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