Terror psicológico, violência sexual e tortura. Esta foi a rotina que uma adolescente de 12 anos, moradora de Jaraguá do Sul, que, por 15 dias, foi chantageada por menores infratores que destilam ódio e cometem crimes pela internet. Dois jovens, também menores de idade, fazendo ameaças de morte e de exposição de imagens íntimas, fizeram com que a menina se cortasse, bebesse shampoo e cumprisse outros “desafios” transmitindo os atos pelo Discord, um aplicativo que permite interações ao vivo.
O A Notícia conversou com exclusividade com a mãe de uma das das vítimas do crime na cidade, que detalhou o sofrimento da filha e de toda família que ficaram reféns das ameaças. A mulher, que será identificada de forma fictícia nesta reportagem como Rosana, desconfiou que algo estava errado quando percebeu uma mudança no comportamento da garota, que passou a ficar mais isolada no quarto e se mostrar mais preocupada com a aparência.
Um dia, ao chegar do trabalho, foi conversar com os filhos, coisa que faz rotineiramente. Foi quando encontrou a filha chorando no banho e descobriu que ela vinha se mutilando.
"Ela estava virada no chuveiro, chorando. Aí eu falei: “filha, vira pra mãe”, ela falou que não queria, mas eu insisti. Quando ela se virou, vi que estava toda cortada. Tirei ela do chuveiro e examinei todo o corpo, a parte íntima, e vi que os cortes ainda não eram profundos, eram arranhões de estilete, superficiais. O que estava um pouco mais profundo era na vagina. Pra mim foi muito chocante", lembra a mulher.
Rosana conta que, neste primeiro momento, a jovem não citou as ameaças, mas com o tempo começou a se abrir. A mãe diz que as primeiras abordagens de um dos adolescentes envolvidos com a vítima não foi violenta e começou a partir de uma espécie de “jogo de sedução”.
Ela acredita, inclusive, que esta foi a forma encontrada para atrair a menina, já que ela não é de jogos e este aplicativo é bastante utilizado para games e conversas.
"Alguns amigos e até conhecidos da família jogavam ali [no Discover], porque é um aplicativo que conversa com pessoas de qualquer lugar do mundo. Mas eles [os menores infratores], em primeiro momento, até pela falta de maturidade do adolescente, seduzem, convencem pela vaidade, elogios, presentes, daí mandam link individual. Foi onde tudo começou", destaca.
Após este primeiro contato pelo Discord, este adolescente começou um bate-papo individual com a vítima. Lá, trocaram telefone e passaram a trocar mensagens diárias por WhatsApp.
Quando conseguiu atrair a confiança da vítima, dizendo que a amava, que iria pedi-la em namoro e que iria até Jaraguá do Sul visitá-la, começaram os pedidos de fotos íntimas, que posteriormente foram utilizadas para forçá-la a cumprir os desafios. Caso não fizesse, teria nudes vazadas na internet. A partir disso, a vida da família “virou um inferno”, como resume Rosana.
"E, antes mesmo da família descobrir, houve todas as torturas, de mandar de cortar [partes do corpo], de jogar água quente no corpo. Ela tomou shampoo. Era pedido para mostrar explicitamente as partes íntimas, falar coisas agressivas, coisas de prazer, como “eu mando em você”, ou “você que me manda”,”eu pertenço a vocês, “podem me matar”. Mesmo chorando, em desespero, eles mandavam ficar repetindo", descreve a mãe.
Em dado momento, um segundo menor apareceu na história. Segundo Rosana, ainda mais violento e cruel. As mutilações cometidas pela vítima eram filmadas e utilizadas para subornar ela e a família. O irmão da jovem, de 14 anos, recebeu um dos vídeos em que a irmã aparece se machucando e foi forçado algumas vezes a jogar com os infratores.
A família recebia ameaças de morte, de exposição, sequestro e tortura, além de pedidos para ferir os animais domésticos. O adolescente do outro lado da tela fazia questão de demonstrar que era muito bem informado sobre a rotina da jovem, do irmão e dos pais.
"Depois disso, tranquilidade e segurança nunca mais. É uma invasão, é uma violência distante, mas que afeta tua família, afeta o teu sono, tua saúde mental. É muita ameaça, é uma coisa que a família não está acostumada. De repente, tem marginais falando da sua casa, da sua rotina, da movimentação da sua família, da cor da sua casa, até das plantas que temos em casa", desabafa.
No começo, a jovem conseguiu esconder dos pais alguns dos presentes que recebia. Em um certo dia, no entanto, quando a família já estava ciente das ameaças e já havia levado o caso à polícia, um motoboy tentou entregar uma pizza. Rosana argumentou que ela não havia feito aquele pedido e negou o lanche. Em seguida, o telefone dela tocou. Era o agressor da filha, que também passou a ameaçar a mãe.
Depois disso, foram livros, eletrônicos, cestas de cafés, dentre outros itens enviados para a garota. Sempre que recusados, o celular tocava e a família era amedrontada com ameaças de morte violenta e sequestro da jovem. Era como se o criminoso convivesse com a família, mesmo sem nunca tê-los encontrado pessoalmente.
"Nós chegamos a desligar todas as câmeras de casa, mudamos todas as linhas telefônicas, assinatura de streaming, tudo… porque a gente não sabia a o que eles tinham acesso. Citaram até os aplicativos que eu tinha no celular", relata Rosana.
Quando descobriram que a filha vinha sendo vítima do crime, o pai fez uma varredura no celular da adolescente, que havia apagado diversos arquivos e também zerado o histórico de pesquisa. Algumas conversas feitas pelo WhatsApp, no entanto, conseguiu resgatar e viu que a menina, inclusive, era obrigada a ficar em casa, já que os suspeitos poderiam ligar a qualquer momento.
Quando os pais foram conversar com a jovem, ela entrou em pânico, pois seu maior medo era de que descobrissem a situação.
"O pai foi mais a fundo e não conseguiu recuperar muita coisa, mas tinha conversas e vimos que ela já estava há 12 dias em contato com o adolescente e estava sendo torturada há mais ou menos quatro dias. Na mesma hora, ela se espantou, ela estava aterrorizada, falou que não era pra falar no quarto dela que eles iam escutar, que eles iam me matar na hora. Ela falava “vão matar”, “vão divulgar os vídeos que fizeram de mim de tortura”, vão acabar com nossa família”, “temos que mudar de cidade”, “eles conseguem saber onde a gente está”. E, por incrível que pareça, quando começaram a me ameaçar, ele falou “eu sei que você estava ontem na delegacia”", relata.
Após o registro do boletim de ocorrência, em 21 de abril deste ano, a polícia identificou rapidamente os dois adolescentes por trás das ameaças. Trata-se de dois rapazes de 16 anos, que vivem em cidades distintas no Rio Grande do Sul
Em agosto, com auxílio da polícia gaúcha, foram cumpridos mandados de busca e apreensão na casa deles, nas cidades de Porto Alegre e Capela de Santana. Após a identificação dos menores, Rosana diz que a rotina começou a seguir perto da normalidade, mas há cicatrizes que, segundo a mãe, serão difíceis de apagar. Para ela, o que mais dói é a perda forçada da inocência.
"É o fim da inocência. A criança entrou para um mundo escuro, sujo, violento, se expõe demais. Tem demonstrações de sexo, que não é a hora correta. Quando eu olho pra minha filha, o que mais me dói é a violência com a inocência. Os pais vão estar ali, segurar a mão, tratar, compreender e não julgar, mas é muito difícil. Se eu pudesse entrar em cada casa, eu falaria que eles são os nossos maiores tesouros, e como estamos cuidando do que é mais precioso pra gente? Fique de olho, porque é uma ferida que talvez jamais cicatrize, tanto pra família quanto pra ela. Minha maior preocupação é ela e não tem como mais apagar. Isso ela vai carregar pra vida", diz.
Rosana afirma que a situação só não foi pior porque os pais perceberam e agiram rapidamente. A mãe espera que, tornando este relato público, as famílias possam ficar mais atentas aos adolescentes e desconfiem de qualquer mudança de comportamento. Mesmo confiando nos filhos, é importante lembrar que os jovens são vítimas de ameaças e podem esconder a situação por medo.
Fonte: NSC / A Notícia
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