A expectativa é que este mês de junho marque a transição para o fenômeno climático El Niño com maior aquecimento do Pacífico Equatorial e o acoplamento das condições do oceano com a atmosfera. A NOAA, a agência de tempo e clima dos Estados Unidos, projeta que o fenômeno possa estra configurado em até 60 dias, ou seja, entre junho agora e o mês de julho.
O Oceano Pacífico Equatorial gradualmente ingressar em condições de El Niño, de acordo com a análise da MetSul Meteorologia. A anomalia de temperatura da superfície do mar já está em patamar de El Niño e a atmosfera lentamente começa a apresentar sinais de condições do fenômeno. Conforme o último boletim semanal da Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera (NOAA), dos Estados Unidos, divulgado na segunda-feira, a anomalia de temperatura da superfície do mar era de 0,4ºC na denominada região Niño 3.4, no Pacífico Equatorial Central, que é usada oficialmente para definir se há um El Niño na forma clássica e de impacto global.
O valor está exatamente no limite da neutralidade (-0,4ºC a +0,4ºC) com El Niño fraco (+0,5ºC a +0,9ºC), mas os dados diário de hoje já apontam a anomalia de temperatura do mar nesta área do Pacífico em +0,6ºC. Por outro lado, a região Niño 1+2, perto das costas do Equador e do Peru, que costuma impactar as precipitações e a temperatura no Sul do Brasil em qualquer época do ano, estava com anomalia de +2,0ºC, em nível de El Niño costeiro forte a muito forte.
No Brasil, em anos de El Niño, geralmente, a chamada corrente de jato subtropical (ventos que sopram na região subtropical de oeste para leste, se posicionando a 10 km de altitude) é intensificada, bloqueando as frentes frias sobre a Região Sul do País e causando excessos de chuva nos meses de inverno e primavera.
El Niño costeiro não é El Niño clássico ou canônico. Trata-se de evento oceânico-atmosférico de aquecimento anômalo das águas do Oceano Pacífico equatorial nas proximidades das costas sul-americanas, junto ao Peru e Equador, que afeta o clima de países como Peru, Equador e às vezes o Chile. É fenômeno local que não afeta todo o clima mundial e diferente do El Niño na sua forma clássica ou canônica, este de impacto global com aquecimento das águas irradiado na faixa equatorial, o que se espera para os próximos meses.
POR QUE AINDA NÃO HÁ EL NIÑO? A anomalia da temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 atingiu pela primeira vez patamar de El Niño na metade de maio, entretanto ainda não se pode ainda afirma que um evento de El Niño tenha começado no Oceano Pacífico. Anomalias positivas de ao menos 0,5ºC no Pacífico Equatorial Centro-Leste são necessárias para a caracterização de um El Niño, contudo por si só não são suficientes. São necessárias várias semanas consecutivas com aquecimento de no mínimo 0,5ºC nesta parte do Pacífico para que se declare um El Niño. Mas não apenas isso. Como o El Niño é um fenômeno oceânico-atmosférico é preciso ainda que a atmosfera na região passe a se comportar como em El Niño. Até recentemente, não havia qualquer sinal de que a atmosfera estava migrando para uma fase do fenômeno. Um dos indicadores é o chamado Índice de Oscilação Sul (SOI em Inglês). É preciso que seja fortemente negativa para indicar mudanças na circulação de Walker, mas nos últimos meses esteve perto da média com -1,8 em março e -1,2 em abril. Mas mudanças começam a ser vistas. A SOI média de maio despencou para -15,2, que é muito baixa e totalmente condizente com uma condição de El Niño
. Quando os valores são negativos, como agora, há enfraquecimento na diferença de pressão de superfície que normalmente existe entre o Oeste e o Centro-Leste do Pacífico e uma redução dos ventos de Leste para Oeste que são o componente-chave da circulação de Walker. QUANDO SE SENTIRÃO OS EFEITOS DO FENÔMENO O fenômeno El Niño, que ainda não está configurado, deve provocar um significativo aumento da chuva no Sul do Brasil durante o segundo semestre deste ano. Após três anos de La Niña com sucessivas estiagens, o El Niño deve proporcionar uma sequência de meses de chuva acima a muito acima da média no Sul do país, em particular no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Podem ocorrer eventos extremos de precipitação com inundações, enchentes e deslizamentos de terra. Algumas enchentes podem ser de maiores proporções.
No Norte e no Nordeste do Brasil, ao contrário, o El Niño traz uma redução significativa da chuva e favorece secas no território nordestino. Modelos indicam uma marcada redução da chuva no Norte do país nos próximos meses. Muitas previsões indicam que os efeitos do El Niño somente se sentirão a partir da primavera, mas as consequências do forte aquecimento do Pacífico devem se sentir já no inverno, quando se espera os índices de precipitação aumentem no decorrer da estação no Sul do Brasil. O período mais crítico, conforme a climatologia histórica e as projeções dos modelos, é que seria na primavera com muita chuva e temporais frequentes. Desenha-se, assim, um segundo semestre extremamente chuvoso em áreas do Sul.
El Niño pode causar maior perda econômica da história, diz estudo
Caracterizado pelo aquecimento de uma faixa de água do oceano que percorre a América do Sul à Ásia de três em três anos, o El Niño está previsto para acontecer em torno de junho deste ano, causando perdas econômicas 100 vezes mais caras do que o imaginado.
Um estudo feito por Cristopher Callahan e Justing Mankin, da Universidade de Dartmouth, e publicado na revista “Science”, examinou os custos gerados à longo prazo pelo El Niño desde seu primeiro registro, apresentando um custo médio de cerca de US$ 3,4 trilhões (aproximadamente R$ 16, 8 trilhões).
Em 2023, o fenômeno deverá provocar um rombo de US$ 3 trilhões (R$ 14, 8 trilhões) na economia global até 2029.
“Podemos dizer com certeza que sociedades e economias não apenas sofrem um golpe e se recuperam. Nos trópicos e lugares que sofrem os efeitos do El Niño, você obtém uma assinatura persistente durante a qual o crescimento é retardado por pelo menos cinco anos”, disse Cristopher Callahan.
Os pesquisadores examinaram durante dois anos o desempenho da atividade econômica global após os fenômenos de 1982-1983 e 1997-1998, concluindo a existência de uma desaceleração no crescimento da economia mais de cinco anos após o acontecimento do El Niño.
Se houve uma perda de US$ 4,1 trilhões (aproximadamente R$ 20,3 trilhões) cinco anos após o evento, um total de US$ 5,7 trilhões (R$ 28, 2 trilhões) foi perdido na versão seguinte.
Tendo em vista a maior frequência das mudanças climáticas geradas pelo aquecimento global, além das consequências adicionais dos gases do efeito estufa, que podem ampliar a força dos futuros El Niños, os autores do estudo estimam que as perdas econômicas do século 21 aproximem-se do valor de US$ 84 trilhões (R$ 415,8 trilhões) .
“Nossos modelos climáticos têm sérios preconceitos quando se trata do El Niño na amplitude do Oceano Pacífico. Muito mais ciência precisa ser feita para saber exatamente como o El Niño vai mudar em meio ao aquecimento global. Mas enquanto nos aproximamos de outro El Niño esse ano, que pode nos trazer o ano mais quente da história, nossos resultados demonstram que os pedágios socioeconômicos sobre esses eventos não podem ser exagerados”, conclui Callahan.
Com informações da MetSul e da CNN Brasil
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